Deus não é Idiota: Nós Somos

Devemos rezar, não por obrigação ou para pedir coisas, mas para apaziguar a mente, afastar a ansiedade, o medo e o preconceito. Como escreveu Exupéry, em “Cidadela”: a maior oração é o silêncio, é nele que o espírito abre as suas asas. Por isto a meditação é a melhor forma de oração, é no silêncio que o divino se revela em nosso interior e vem à tona, à superfície, depois que cessa o ruído de nossas preocupações momentâneas, trazendo ao nosso dia-a-dia paz, amor, harmonia, beleza e alegria.
É falso pensar que Deus exige isto ou aquilo, que não podemos errar, e que “pecar” nos conduz à punição e ao inferno. Primeiro, não existe pecado, muito menos o original, é ridículo e absurdo pensar que um bebê nasce culpado de algo que um Adão mítico fez. Crianças são inocentes: ponto. Adão é a representação simbólica de um primeiro hominídeo a se distinguir dos símios, por isto talvez possamos aceitar o pecado original e a expulsão do paraíso como alegoria da perda de um estado de união com a natureza e o divino, pelo desenvolvimento da consciência individual excludente. Segundo, se pecado existisse, ele seria apenas toda e qualquer ação, sentimento e pensamento pessoal que gere culpa ou arrependimento. É errado agirmos contra os imperativos de nossa própria consciência, assim como infringirmos sofrimento aos outros e a nós mesmos, pois fazer sofrer nos faz sofrer. Portanto, é racional e de bom senso seguir a razão e não violar as leis humanas, não porque Deus o exija, e sim porque é sábio almejar o bem-estar, o ser melhor, o viver bem, o estar de bem com o mundo, em paz. Terceiro, em geral os nossos atos, sentimentos e pensamentos, devem se pautar pelo saber e pela verdade, sem proselitismo e idolatria, subterfúgios, enganos, obscuridades, crendices ou crenças infundadas, enfim, preconceitos e fanatismos de todo tipo. É preciso estar aberto a toda e qualquer experiência de vida, ouvir e refletir sobre toda e qualquer tese ou teoria, hipótese ou proposta inovadora. Mas, ao mesmo tempo, é necessário descartar o que a ciência demonstre ser falso, o que o saber demonstre ser infundado, o que o respeito pela liberdade de opinião e de expressão demonstre ser o oposto, um modo de opressão e repressão, forjadores de diferenças que incitam ao ódio, ao preconceito e à guerra.
É puro preconceito proibir isto ou aquilo que não esteja vedado por lei humana, só é proibido proibir o que a lei não proíbe. Nenhum livro é sagrado e nenhum personagem humano é Deus, e o próprio Deus não é um Ser contra o qual se possa cometer sacrilégio e pronunciar seu nome em vão. É válido fazer caricatura e rir de toda e qualquer pessoa, personagem histórico, imagem ou mensagem. Deus não é avesso ao riso e à pantomima. Todos possuem direitos iguais perante o divino, mesmo aqueles que uma visão retrógrada de religião chama de pagãos, idólatras, ateus e pecadores. Bem-vindo ao céu todos os de outra cor ou outra opção sexual, os sem crença, os rebeldes e contestadores, os críticos, os debochados, os materialistas, os pobres e os ricos, os ascetas e os promíscuos, os que praticam a luxúria, a gula, a avareza, a preguiça, enfim, os que exercem todas as práticas que necessitam apenas ser dosadas para trazer felicidade, em vez de eliminadas, de modo a produzir infelicidade, desilusão, pessimismo e depressão. Não ao preconceito a tudo o que implica em olhar de cima ou de lado, e não de frente, nos olhos, olho no olho.
Por uma religião da vida, pós-moderna, e com um Deus contemporâneo!